domingo, janeiro 25
Rodovia
Foi quando os primeiros raios de Sol refletiram em mim naquela manhã de terça-feira que percebi que ainda não era o passageiro certo. Estava mesmo cansada e era essa a palavra que eu mais pensava ultimamente, mas as pessoas que cuidavam de mim não entendiam o meu cansaço já que eu era sustentada por pilares de ferro. O que elas não sabiam era que eu estava cansada de ser uma rodovia, como aquelas que nós vemos em filmes, uma rodovia cheia de encontros, despedidas e lotada de vida, mas que ao entardecer permanece sozinha, apenas observando tudo ao seu redor. Sabe, o mais estranho é presenciar encontros perfeitos e adorar tudo ao seu redor por isto, mas logo depois presenciar também a despedida daquilo que tinha exatamente o suficiente parar durar o bastante a ponto de se chamar eterno. E aí, eu me pego refletindo durante a madrugada... Quantos encontros ainda serão necessários? Quantas despedidas? Quantas vezes isso terá que acontecer para que finalmente se torne eterno? É difícil ser uma rodovia. Não escolhi ser uma, mas acho que por algum motivo me fizeram assim. E o pior, sei que tenho materiais vagabundos no interior dos meus alicerces. Então, durante esses ocorridos, vez ou outra alguém resolve olhar com mais carinho para as minhas estruturas, resolve abraçar os meus pilares, sentir mais o meu cheiro e me tocar com mais delicadeza. Mas, queria admitir para elas que não depende apenas de mim, mas sim de tudo aquilo que me torna uma grande rodovia, como os blocos, o cimento e a grande pilastra central. E é aí que acontece, aparece alguém que me olha de uma forma diferente, ou não. Aparece uma pessoa que tem um toque diferente, que talvez nem seja tão cuidadosa e atenciosa, mas que sabe apreciar toda a arquitetura, toda a história que há em mim. Então vem a chuva de areia e suja o que demorou certo tempo para ficar totalmente limpo. Pois, como se não bastasse presenciar todos esses encontros e desencontros, presencio a indecisão que você (aquele que sabe como me apreciar) carrega, sobre entrar ou não na minha estação. E sim, eu sei que não depende de você, vejo nos seus olhos, sinto no seu toque e na brisa que passa por mim todas as madrugadas. Mas, sabe... Queria que você soubesse que criei um carinho por você, talvez por você vir todas as noites até mim para pensar se deve embarcar ou não, talvez pelo cuidado que você tem ao encostar nas minhas pilastras, talvez pela atenção que você tem em não deixar nada bagunçado por aqui, talvez pela vontade real em estar aqui todas as noites ou talvez por todas esses fatores juntos. Só que hoje ao sentir os primeiros raios de sol no meu entorno, eu permaneci em dúvida, não sei mais se quero que você venha até aqui, não sei se quero sentir os seus cuidados e o seu olhar atencioso para a arquitetura. Porque talvez você queira mesmo embarcar na sua antiga estação e eu serei apenas mais uma rodovia entre tantas outras. Enquanto você é para mim o passageiro que eu mais quis encontrar nos últimos tempos.
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